Entrevista, em diferido, a Rogério Nuno Costa

Sobre o entrevistado Rogério Nuno Costa, pode começar por consultar http://www.rogerionunocosta.com/, mas caso não possua a capacidade hermenêutica necessária, comece antes por aqui http://vouatuacasa.wordpress.com/.

© Susana Neves/Circular Festival de Artes Performativas

Pergunta nº1

A apresentação do teu trabalho (de palco) em Torres Vedras tem estado quase sempre envolvido em “questiúnculas”, no entanto o teu último “Residência (Artística)” parece ter ultrapassado uma fronteira qualquer, tendo-se tornado uma verdadeira polémica. O que consideras ser o substrato fundamental dessa polémica ?

Existe uma primeira “polémica” que é de cariz meramente institucional. Sobre essa não me vou pronunciar, pois não tem rigorosamente nada a ver com o que acho ser interessante discutir sobre e à volta de um espetáculo. Todo e qualquer espetáculo é político; mas nenhum espetáculo deve ser “política”. Uma segunda “polémica”, diretamente relacionada com os conteúdos do espetáculo e a percepção que deles fazem os espetadores, prende-se, a meu ver, com uma confusão entre os regimes ético e estético que no espetáculo são um só. Todos sabemos, mesmo que de forma inconsciente, que qualquer espetáculo é uma obra de ficção, e como tal não é possível confundir os conteúdos do espetáculo (por mais “realistas” que sejam) com a Realidade (seja lá isso o que for). Quando partimos para uma abolição dialética desse binómio ético-estético, que é (e quer-se) radical, parece-me lógico (e até desejável) que surjam reações alérgicas. Não me parece lógico, porém, que dessas reações alérgicas sobressaiam equívocos gravíssimos, que não me parece que sejam apenas terminológicos. Por exemplo, o conceito de “pornografia”, que não está de todo ligado à apresentação mais ou menos explícita de órgãos sexuais ou simulações mais ou menos “reais” de relações sexuais, mas antes àquilo que através dessas simulações se pretende operar no público. Ora a “pornografia”, tida no seu sentido lato, tem subjacente um objetivo claro de excitação do espetador através de uma exposição explícita do ato sexual por meio de um mecanismo de observação assumidamente voyeur. Como poderia analisar Zizek, trata-se de um mecanismo masturbatório, sempre. Nada disso se passa neste espetáculo; todas as cenas (as sexuais, que são duas ou três, e as outras todas) inscrevem-se num território de descontextualização e de atrito conceptual (readymades de cenas do quotidiano, de filmes marginais, de espetáculos de outros autores, de clichés da performance art dos anos 70, etc., etc., etc.), e nesse sentido têm, todas, o mesmo valor ético/estético. Queremos que o espetador jogue connosco esse jogo (que é um jogo de reconhecimento referencial, muito à la Pictionnary, mais do que um jogo de confrontação ou de provocação). Continuar a ler

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