Suspeições sobre “Residência (Artística)”

“Residência (Artística) é um projecto ESTUFA, Plataforma Cultural. Co-produção: Teatro-Cine de Torres Vedras e Espaço do Tempo (Montemor o Novo) | Direcção artística: Rogério Nuno Costa. + info: http://www.estufa.pt/pt/residenciaartistica/
 

 Devo dizer, à partida, que sou insuspeito de pretender vangloriar ou sequer defender publicamente o trabalho do Rogério Nuno Costa (Rogério), mas não ignoro nem pretendo ignorar…e, por outro lado, suspeito que a sua colaboração e produção baseada em Torres Vedras tem tido uma forte componente de especificidade em relação ao contexto social/cultural local (social-context specific), o que me parece de grande pertinência.

Os seus projetos torrienses têm merecido (quase) constantemente comentários, críticas desfavoráveis e muitas reservas por parte do “bom gosto” médio reinante. Também confesso que vi o “Mash-Up” (2009)- essa que foi a primeira vez que Rogério usou o palco (à italiana) do Teatro-Cine de Torres Vedras- e lembro-me de ter ficado com má impressão daquilo que na altura me pareceu uma frivolidade bizantina. Depois, e continuando no palco, não vi “Seleção Nacional” (2010) e vi recentemente “Residência (Artística)”

Desta vez houve “reações alérgicas” mais profundas, crispações, abalos na tectónica e comentários intolerantes tais como « Acho vergonhoso ainda existirem pessoas que apoiam este paneleiro com a mania que é irreverente. Este palhaço serve-se do talento das pessoas, e da sua ingenuidade, para as manipular, a este ponto tão alto de estupidez . Acho indecente andarem a roubar dinheiro com este tipo de atuações baratas e pouco fundamentadas. » (https://www.facebook.com/events/243933345693373/)

Logo à partido, na exibição do espetáculo, houve um erro crasso, o da inexistência do aviso de classificação etária para maiores de 16, tendo isso gerado alguns inconvenientes e exposto menores a cenas e linguagem de cariz sexual. O que seria escusado…e isso evitaria algumas das reações epidérmicas. Não pretendo apurar responsabilidades, mas parece óbvio que não é dos artistas.

Mas vamos ao que interessa. E o que a mim me interessa é ter compreendido um bocado melhor as propostas e a evolução do trajecto anti-artístico (?) do Rogério. Anti-artístico não no sentido ideológico-histórico-estético do termo, mas nas suas implicações práticas, ou seja nos modos do fazer acontecer. Assim, é preferível começar pelo meio/suporte que é o “espetáculo em si”- o acontecimento. Depois há o que fica no sistema neuronal de cada espectador e entre as mensagens que procuram inscrever-se num hipotético grupo social.

© Rogério Nuno Costa

 O espetáculo/acontecimento é sempre resultado das circunstâncias e dos seus protagonistas, é algo da categoria dos possíveis, pois podia ser sempre de outra maneira… Mas também da sua preparação conceptual, das hipóteses e condições de produção, etc…Depois da residência (artística) em Torres Vedras e em Montemor-o-Novo (Fev. 2012), onde o criador reuniu seis jovens intérpretes em co-criação. O resultado pode não ter sido fenomenalmente profissional e irrepreensível, mas foi com certeza fruto de um trabalho prévio desenvolvido com a devida paixão e compromisso pessoal.

Uma das características mais notáveis do trabalho do Rogério é a sua prolífica sistematização de regras de conduta (http://www.dogma05.blogspot.pt/) , manifestos (http://universidadyliopisto.blogspot.pt/), projectos de documentação (http://vouatuacasa.wordpress.com/) , etc, etc… E isto serve para dizer que é, no mínimo, muito arriscado afirmar que o seu trabalho é lacunar em termos de sustentação conceptual-teórica ou de auto-reflexão. Portanto, não se pode dizer que “Residência (Artística)” seja um objecto artístico contaminado por uma espécie de laxismo de projecto estético. O problema é então, como é em geral o da arte contemporânea, basicamente um problema de leitura e aproximação ao universo simbólico dos artistas individualmente considerados, das suas idiossincrasias e modos de acção. E neste caso, podemos afirmar que existe a generosidade suficiente, por aparte dos co-criadores, em fornecer as pistas minimamente necessárias para que a percepção do espectador seja minimamente informada do que vai percecionar. Informação, documentação, registos, apontamentos, é coisa que não falta no trabalho do Rogério…

Em “Residência (Artística)” há até uma dose de humildade em colocar o “artístico” em suspenso, pois «sabemos que nem sempre a qualidade apocalíptica de um EPIC FAIL é tida em consideração por mentes menos bravas.» (http://www.universidadyliopisto.blogspot.pt/2012/03/1-residencia-artistica.html). Os dados estavam já lançados, 2012 é anunciado como o ano da mudança de paradigma nas metodologias de trabalho do Rogério (http://www.universidadyliopisto.blogspot.pt/2012/01/newsletter.html), foi por ele criada a UNIVERSIDADE [YLIOPISTO], instituição instituída no âmbito do processo de Finlandização e da Terceira Via™ , cujo manifesto está aqui:http://www.universidadyliopisto.blogspot.pt/2009/12/manifesto.html

Mas, regressando ao espetáculo, este assenta, como seria de esperar, numa teia complexa de contaminações diversas: literárias, filosóficas, históricas, tendências, etc…. que se condensam num processo de subjetivação “hipsterizada”, e «na banalidade e uma fé inconsolável numa atitude demissionária e cética em relação ao Mundo » (Rogério Nuno Costa, http://www.cm-tvedras.pt/ficheiros/agenda-anexos/residencia_artistica_imprensa_resized.pdf).

Estamos nos antípodas da produção teatral seguindo cânones já estabelecidos: texto, actores, palco à italiana como lugar simbólico de poder, construção de sentidos,…Residência (Artística) visou a criação de um hetero-espaço, de uma zona temporária autónoma, cujas regras de funcionamento se baseiam em listas de procedimentos instituídos pelo próprio encenador (Dogma05, Terceira Via™), em conjugação com as regras definidas para este “espectáculo-tese”: um espaço onde se habita temporariamente, a angústia de ter que preencher esse espaço com momentos significativos, a vontade de não fazer nada, o síndrome de Bartleby aplicado à vida (não à arte), a preguiça como novo avant-garde. (idem)

Umas das condições assumidas é que este não era um espectáculo para ser visto como “peça de teatro” convencional, seria baseado na improvisação (em tempo real) e na experiência dos 6 jovens intérpretes durante a residência que durou um mês e posterior workshop, ou seja, não se trata de um trabalho para e com actores de longa carreira, nem de uma dramartugia encenada. Apesar disso, apesar de não ser pertinente avaliar o resultado pelo grau de “qualidade” das interpretações/representações, até porque a representação se confunde aqui com uma ontologia preguiçosa do “ser em cena”, é no entanto justo salientar o nível de exposição pessoal e afirmação das subjectividades homoeróticas dos elementos masculinos. Não se trata de fazer a apologia do “sair do armário”, mas de conquistar publicamente uma afirmação sociocultural (orientação de género, imaginários gay, etc.) que, sob a pressuposta tolerância urbana, é ainda, em 2012, uma miragem…

… nem quero com isso dizer que esse seja o elemento mais importante, mas que é apenas um efeito secundário contextual e socialmente relevante – na minha modesta opinião.

Regressando definitivamente ao espectáculo (real e concreto), há uma dificuldade interessante e a meu ver bem resolvida, que resulta da entropia provocada pelo excesso de informação em simultâneo em vários canais, e com o movimento caótico dos intérpretes, cujas acções parecem deslizar entre o ócio -(não) fazer nada de especial- e o já referido síndroma de Bartebly, na fórmula “ Prefiro não o fazer” usada repetidamente pelo protagonista no livro “Bartleby, O Escrivão” (Herman Melville).

Entre o ócio e a potência de tudo poder fazer mas optar por não fazer, existe um território comum que é a própria experiência do pensamento e da vontade, e da sua contrapartida que é normalmente aceite como o agir, o fazer. Do ponto de vista do senso comum, esta suspensão (epoché) deliberada é considerada absurda e menosprezada, pois o imperativo do “produzir”, da “competitividade”, da “criatividade” ou da “inovação” é suficientemente colonizador para confortar as mentes do negócio.

Em versão grega (não coincidente claro): entre a poiesis e a práxis do processo artístico fica como resultado fenoménico uma aplicação biopolitica da techné, ou seja, o dispositivo performático e tecnológico convergem para criar um campo de caos, e «definimos o caos menos pela sua desordem do que pela velocidade infinita com que se dissipa toda a forma que nele se esboça. É um vazio que não é um nada, mas um virtual, contendo todas as partículas possíveis e adquirindo todas as formas possíveis que surgem para de imediato desaparecerem, sem consistência nem referência, sem consequência» (Deleuze, Guatari. “O que é a Filosofia”)

Essa epoché anteriormente referida, não é apenas o mote da fenomenologia moderna (Husserl) para designar a “contemplação desinteressada” de quaisquer interesses naturais na existência, o que significa que a suspensão de juízo fenomenológico não põe em dúvida a existência, mas abstem-se de emitir juízos sobre ela, mas é também e originariamente o modus operandis dos Céticos gregos (Diógenes) para quem a epoché era a única atitude capaz de levar à imperturbabilidade, afirmavam que duvidar do caráter bom ou mau de todas as coisas leva o indivíduo a não querer nem rejeitar coisa alguma, tornando-se imperturbável.

©António Palma

E o é que é que isto tem a ver…..?

Há uma frase atribuída a Pirro (outro filósofo cético grego), no Livro “Bartleby – a escrita da potência” de Giorgio Agambem, que diz às tantas «…limitamo-nos a anunciar a paixão.» (p.29), que sugere que o papel do Cético ( e Rogério Nuno Costa assume o ceticismo) é o do mensageiro que apenas anuncia sem acrescentar nada à mensagem. E esta ausência de proposição estética deliberada é a «experiência de uma possibilidade ou potência. Aquilo que se mostra no limiar entre ser e não ser, entre sensível e inteligível, entre palavra e coisa, não é o abismo incolor do nada, mas o raio luminoso do possível» (idem, p.30).

Portanto, quando em Residência (Artística) « um espetáculo feito de clichés, de lugares-comuns» se convocam quase todos os lugares-comuns da contemporaneidade cyborg, “hipsterizada”, pós-meta-moderna, meta-colonial, hiper-hibrida, etc… e os seus efeitos cosméticos complementares… sem assumir um posicionamento crítico (desnecessário neste âmbito amoral), ficamos nesse limbo dos anjos tornados mensageiros ( marionetas kleistianas) , um território que segundo Agambem « Quem neles se aventura, arrisca de facto, não tanto a verdade dos próprios enunciados quanto o próprio modo do seu existir e realiza, no âmbito da sua história subjectiva, uma mutação antropológica a seu modo tão decisiva quanto foi, para o primata, a libertação da mão na posição erecta, ou, para o réptil, a transformação dos membros anteriores que o mutou em pássaro.» (idem, p. 34).

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17 thoughts on “Suspeições sobre “Residência (Artística)”

  1. 0. Rui, lembro-me da tua reacção ao Mash-Up e confronto-a com a forma como eu reagi enquanto espectadora a este último espectáculo do RNC. Estou por isso, completamente, deliciada a ler este artigo.

    1. A co-produção deste espectáculo é também de O Espaço do Tempo (Montemor-o-Novo).

    2. Enquanto ex-responsável da secção / coordenadora de Teatro do ATV, ou o raio que o parta, devo referir que, sobretudo o Mash-Up, pode ter tido críticas desfavoráveis junto do teu círculo de amigos mas as reacções foram, não obstante, extramamente favoráveis por parte da maioria dos espectadores.

  2. Sim, na altura do Mash-up ainda não estava (nem quis, confesso) preparado para este tipo de trabalho em palco do RNC 🙂

    Quando digo “frivolidade bizantina” não quero ser pejorativo (apesar de a impressão/memória com que fiquei na altura não fosse maravilhosa)…mas agora percebo melhor que essa “frivolidade” (os clichés, os lugares-comuns, o caixote-de-lixo) é o material de trabalho consciente e justificadamente utilizado pelo RNC quando usa o palco.

    E, como só se pode apreciar um trabalho artístico depois de conhecer os seus paradigmas… agora tudo fica mais claro.

  3. Obrigado, Rui!

    Haja alguém que se preocupa em “pensar” antes de “falar” (independentemente da questão absolutamente supérflua do gosto). É-me indiferente se gostas ou não do meu trabalho; a mim basta-me saber que fazes um esforço para dialogar com o meu pensamento (artístico), pondo para tal em tensão as tuas referências com as minhas. E isso tem um nome: COMUNICAÇÃO. A única razão pela qual continuo a acreditar que vale a pena fazer espetáculos…

    Contam-se pelos dedos das mãos as pessoas que conheço que não confundem arte com entretenimento. És uma delas.

    Abraço e até breve!
    Rogério

  4. De nada Rogério !

    obrigado também pela oportunidade de “pensar”….

    acho que terminei esta breve incursão, vê por favor a partir de « … nem quero com isso dizer que esse seja o elemento mais importante, mas que é apenas um efeito secundário contextual e socialmente relevante – na minha modesta opinião.

    Regressando definitivamente ao espectáculo »

    É uma parte mais “filosófica” , porque havia o enigmático teu “cepticismo”…que não tinha a certeza por onde começar, mas acho que agora vejo melhor o fio com que vais tecendo e entrosando o teu pensamento (artístico)…

    Abraço e até !
    Rui

  5. Já li a “adenda”. Brilhante atrito referencial. Pergunto: já leste porventura o romance de Enrique Vila-Matas “Bartleby & Cia.”?

  6. …foi uma invenção de emergência ;)…. mas é um tema que gostava de desenvolver um bocadinho mais (quando tiver tempo, ainda existe tempo ?)…

    ainda não li o livro do Vila-Matas…vou tentar apanhá-lo!

    conhecias este do Agambem ? é muito bom… filosofia da boa 🙂

    um dia destes gostava de te fazer uma perguntas (entrevista ?!) via email sobre a dimensão teórica do teu trabalho vs. praxis, etc…

    tens textos teus online ?

  7. É curioso como, em menos de 24 horas, alguém passa de:

    “Rui Matoso: Já agora, se me permitem… a única coisa a lamentar, de facto e de direito, é a ausência de classificação etária, mas a responsabilidade disso é do Teatro-Cine (entidade pública tutelada pela Câmara Municipal)…gostava de ver então a mesma intolerância aqui verbalizada contra a CMTV!”

    para:

    “Logo à partido, na exibição do espetáculo, houve um erro crasso, o da inexistência do aviso de classificação etária para maiores de 16, tendo isso gerado alguns inconvenientes e exposto menores a cenas e linguagem de cariz sexual. O que seria escusado…e isso evitaria algumas das reações epidérmicas. Não pretendo apurar responsabilidades, mas parece óbvio que não é dos artistas.”

    Afinal, em que é que ficamos?
    Passa-se de um claro apontar de dedo, para “Não pretendo apurar responsabilidades”!?
    Concluindo, de seguida, que quem concebe/interpreta obras tão elaboradas, não possuí o mínimo do bom senso, no que concerne ao respeito pelo público e ao papel das instituições na sociedade.

    No meu entender, a opção pela ruptura é, claramente, premeditada, sendo usada como um veículo para uma maior projecção.
    O “erro crasso” da ausência de classificação etária, foi parte integrante do espectáculo, em si mesmo continha a garantia de que, nos dias seguintes, as pessoas iam falar do espectáculo, dizendo algo mais do que o simples “pfff”, foi um golpe publicitário. Há que ficar na “História”!

    O resto é palha, há quem goste, há quem compreenda, ou pense (ou finja) que compreende, há quem esteja disposto a aproveitar a boleia para o “estrelato”, a qualquer custo, assim como, há quem ocupe posições diametralmente opostas.

    Outra questão essencial é reflectir sobre a viabilidade económica deste tipo de espectáculo sem recorrer a apoios de toda a espécie, alguém me pode esclarecer sobre os custos totais e discriminados inerentes à Residência (Artística) e do seu retorno em bilheteira? Isto sim, era um espectáculo!

    No final, a saída fácil é chamar burros aos que pagam as contas.

    A “comunicação” exige um esforço de ambas as partes…

  8. A 1ª questão relativa à coerência do discurso acerca de quem é a responsabilidade (última) da ausência de classificação etária teria pertinência se a fonte fosse a mesma, mas não é. A citação inicial foi retirada de um post no Facebook e a seguinte do texto que escrevi acima. São dois géneros de escrita/mensagem completamente diferentes, a 1ª foi uma reacção mais emotiva a um ataque difamatório, a 2ª foi mais reflectida.

    Em suma, não pretendo de facto “apurar responsabilidades” ! Mas se isso tivesse de ser feito, considero que não é o elo mais fraco (artistas, intérpretes) que as devam assumir e ser molestados por isso.

    Porque essa é a nossa sina, é sempre mais fácil criticar os indivíduos do que criticar as instituições, mas como é óbvio a causa dos problemas (e a solução) sociais/culturais/políticos etc é nas instituições que reside. Mas, note-se, este assunto é um muito mais complexo do que isto…

    Quanto aos restantes comentários, respondo telegraficamente:
    – O respeito pelo público é algo abstracto…existem vários públicos e vários modos de respeito.
    – O papel das instituições culturais/artísticas na sociedade é o de permitir a pluralidade de visões e interrogar/criticar os valores sociais e culturais.
    – Não acredito na teoria da conspiração acerca da premeditação da ausência de classificação etária, aliás bastava o Teatro ter imposto a mesma.
    – A viabilidade económica é nula, como em quase todas as práticas artísticas, mas ao que sei, e é isso que lhe interessa, não houve investimento público

    Quanto aos burros, realmente é verdade, quem anda a pagar a conta do BPN e negociatas afins é o povo. E aí não são centenas de euros, são milhares de milhões…e isso sim é outra arte bem mais lucrativa…

  9. Rui Matoso: estou por Coimbra em processo de criação para um novo espetáculo. Não devo ir a Torres Vedras tão cedo. Podes enviar as perguntas por e-mail, se achares que faz sentido. Quanto a textos, os que estão online já os conheces (citaste-os quase todos no teu artigo). Posso enviar-te por e-mail mais coisas que não estão online. É só pedires! Terei todo o gosto em responder às tuas “inquietações”. 🙂

    Rui Matreiro: vou pegar nas respostas telegráficas do Rui Matoso e devolver a minha posição pessoal enquanto responsável artístico do projeto (a par com os atores/co-criadores, tão responsáveis artisticamente quanto eu). Assim:

    1. Um espetáculo de teatro é uma obra de FICÇÃO. Enquanto espetadores, acreditarmos que o que está a ser dito em palco, mesmo que na forma de insulto, nos é dirigido de forma mais ou menos direta, parece-me uma atitude por demais infantil. Faz-me lembrar a minha avózinha que nos idos anos 70 respondia ao senhor do noticiário na televisão por acreditar que ele estava mesmo a falar com ela. Não sei o que é isso do “respeito pelo público”, como também não sei o que é isso do “respeito pelos artistas”; mas sei que a “comunicação” (as aspas são suas, não minhas) de que falo em cima não tem rigorosamente nada a ver com respeito. Tem sim a ver com um esforço de cruzamento hiper-referencial e partilha de sentidos, mas com a exclusão total e absoluta da questão do “gosto”, que não diz nada acerca do que pensamos. Para uns, o copo estará sempre meio cheio, para outros, meio vazio. Para mim, não passa de um copo com água. É mesmo preciso ultrapassar isto para que haja, de facto, um diálogo.

    2. Cito e assino por baixo: “O papel das instituições culturais/artísticas na sociedade é o de permitir a pluralidade de visões e interrogar/criticar os valores sociais e culturais.”

    3. Não consigo dialogar com qualquer tipo de comentário que subentenda uma premeditação de um ato polémico como forma de “projeção”. A menos que faça tábua rasa do conhecimento que tenho da história (a da arte e as outras todas). A Nan Goldin expôs fotografias de doentes terminais com SIDA nos anos 80, a Marina Abramovic auto-mutilou-se em cena nos anos 70, o John Cage apresentou uma peça musical composta com 3 minutos e alguns segundos de total silêncio nos anos 50, e no início do século XX, os dadaístas marcaram espetáculos aos quais depois não apareciam, deixando os espetadores a olhar para o palco com cara de idiotas. Se enfiar uma garrafa no cu é polémico em 2012, vou ali e já venho… E não, estas referências que apresento não pertencem a uma elite de iluminados instruídos; estão à distância de um click na Internet ou então na Coleção Berardo que está no CCB e que tantos milhares de visitantes tem recebido…

    3. Quanto à questão do investimento… Depois das já bafientas (e cansativas) metáforas escatalógicas em relação à criação contemporânea: “A partir de agora também posso ir à casa-de-banho cagar e chamar a isso arte…”, entre outros comentários afins, já cá faltava o célebre: “Mas quem pagou isto?”. Ironia do destino, ou não, este projeto não teve qualquer tipo de investimento público. Do Teatro-Cine de Torres Vedras (ou deveria dizer Câmara Municipal de Torres Vedras?) não recebemos um tusto (nem duas reles dezenas de cartazes nos imprimiram) e o dinheiro gasto em logística durante o processo de criação foi-nos emprestado (leu bem: emprestado) pela Estufa (entidade produtora). A bilheteira mal serviu para cobrir esses gastos, o que significa que, para todos os efeitos, eu e os criadores deste espetáculo estamos neste momento a “dever dinheiro” à entidade que nos produziu. Tendo em conta que os criadores deste espetáculo trabalharam de graça durante quase dois meses, perdendo assim a oportunidade de ganhar dinheiro trabalhando noutra coisa qualquer, assumi-los-ei, sem qualquer tipo de ironia, como MECENAS do espetáculo na folha de sala da próxima apresentação, em Lisboa.

    4. Sobre a questão da classificação etária, faço evidentemente minhas as palavras do Rui Matoso, mas sobre isso farei post autónomo.

  10. Sobre a classificação etária, e porque já tive que me pronunciar sobre o assunto a diversas entidades, cada qual com sua marca própria de lápis azul em riste (uns mais salazarentos, outros mais 2012-a-crise-é-fodida-e-não-se-pode-gastar-dinheiro-em-merdas-destas), reciclo aqui algumas passagens da “fundamentação” (à falta de melhor palavra) que tive que escrever há uma semana atrás:

    <<>>

  11. (…)

    É lamentável a situação gerada em torno da ausência de classificação etária; mas parece-me injusta a culpabilização dos criadores, assim como me parece carente de fundamentação o argumento “Não fomos avisados, não estávamos à espera…”. Pergunto: estavam à espera do quê? Ou então: não estavam à espera daquela cena, então e das outras, estavam? Nunca sabemos o que um espetáculo nos vai dar. Se calhar por isso é que se chama “espetáculo”. O elemento-surpresa é sempre um valor a considerar. A única justificação que posso dar neste momento, para proteger o meu trabalho e o dos atores/co-criadores, é o seguinte: nunca fizemos nada às escondidas de ninguém. Se não falámos de certas coisas, é porque elas não nos pareceram importantes. E, honestamente, tínhamos mais com que nos preocupar! Julgo que cabe a uma entidade que se diz produtora de um projeto artístico acompanhar a sua execução, em várias dimensões técnicas e logísticas. À excepção dos períodos de residência, as montagens e os ensaios no Teatro-Cine foram abertos; fizemos sempre tudo às claras, sem ocultações. E sempre chamámos às coisas os nomes que as coisas têm. “A cena em que o André mete a garrafa no cu” (que remete para o filme “Trash”, de Paul Morrissey/Andy Warhol, devidamente citada na fanzine e referida dezenas de vezes, em texto e imagem, no Tumblr oficial do projeto, aberto no início de Fevereiro de 2012) sempre foi referida, e havia técnicos do Teatro que sabiam que ela ia acontecer.

    Em 10 anos de experiência, NUNCA precisei de avançar com a classificação etária dos meus espetáculos (julgamento que é sempre, quer queiramos quer não, de cariz moral, às vezes com laivos de bolor judaico-cristão, e que não me parece que deva competir aos criadores do espetáculo); ao invés, essa classificação foi-me sempre solicitada por terceiros, normalmente pelo Teatro ou espaço de acolhimento, aquando da realização da chamada licença de representação. Em quase dois meses de negociações com o Teatro e com a Estufa, nunca nos perguntaram coisas tão básicas como: “mas o que é que acontece concretamente em cena?”. Não considero que seja eu a tomar a iniciativa de responder a essas perguntas, quando as mesmas não me são colocadas. À ausência das mesmas, eu fui prosseguindo com o trabalho. Parecia-me mais importante encenar o espetáculo, não descrevê-lo, jamais ajuizar sobre o conteúdo moral do mesmo.

    Para nós, criadores do espetáculo, as cenas ditas “pornográficas” têm exatamente o mesmo valor conceptual e discursivo que têm as cenas que o não são; para fazermos Teatro, ou seja, para fazermos “ficção”, temos que tratar os materiais que usamos desta forma despretensiosa, descomprometida, quiçá negligente. Mas é assim que tem que ser; de outra forma, não estaríamos a fazer Teatro, estaríamos a fazer política, ou religião, ou propaganda publicitária, ou outra coisa qualquer. Dizer que um espetáculo é “pornográfico” parte sempre de uma avaliação formal (nunca conceptual), geralmente feita pelo espetador/observador; a menos que queiramos, de maneira assumida, fazer “pornografia”, ou “teatro pornográfico”. Ainda que a ideia de encher os bolsos de dinheiro seja tentadora, não foi esse o nosso objetivo… Ou seja, “pornografia” não é conceito (arriscaria a dizer que nem sequer é forma) neste espetáculo; será, talvez, um caminho (entre centenas de outros), para se chegar às ideias-maiores do projeto, que se encontram devidamente explanadas nos documentos de apoio ao espetáculo (folha de sala, fanzine, Tumblr, Blog, dossier de imprensa, etc.), e suportadas pelos filmes que vimos e um sem número de outros produtos culturais que consumimos (música, livros, programas de televisão, etc.).

    “Pornografia”, para nós, não é um ator enfiar uma garrafa no ânus em cima de um palco no contexto de um espetáculo de teatro; “pornografia”, para nós, é ir à página do Facebook do evento, dois dias depois do espetáculo, e ler um espetador (por acaso irmão de uma das atrizes) a insultar o encenador com palavras como “paneleiro” e “palhaço”. Isso sim, é pornográfico, porque é REAL. Lamento o senhor que saiu chocado da sala com o filho; mas esse senhor abandonou um espaço onde estava a acontecer FICÇÃO, por mais “realista” que ela fosse. Lamento muito mais que em Torres Vedras ainda existam pessoas, supostamente cultas e interessadas em eventos culturais, que não têm vergonha em se apresentarem publicamente com comentários homofóbicos e incivilizados, e demonstrando um total desconhecimento e desinteresse em relação ao assunto sobre o qual se lembram de falar… Gostaria muito que a Estufa e outras associações/organismos culturais de Torres Vedras se debruçassem seriamente sobre isto.

    Por outro lado, e no entanto, também considero importante referir que este projeto nunca existiu para servir “o público de Torres Vedras”; este projeto nasceu para servir qualquer tipo de público, desde que interessado. Recuso-me, portanto, a avaliar este espetáculo mediante uma realidade que até conheço bem (apresento trabalhos em Torres Vedras, anualmente, desde 2003), pois essa avaliação parece-me infrutífera e demagógica. O espetáculo é, e quer-se, do Mundo. E a ele reage. O Mundo não é bonito, o Mundo está podre, a democracia é uma anedota, as pessoas andam a ser enganadas, desrespeitadas, roubadas… E o Teatro não pode fazer de conta que isto não existe; não pode camuflar isto com cosméticos de baixa categoria. O Teatro é um espaço de confrontação, não é um espaço de consolação. O Teatro não existe para dizer às pessoas o que devem fazer, o Teatro não é um tutorial do Youtube. O Teatro existe para mostrar às pessoas exatamente aquilo que está espetado à frente do seu nariz. É que às vezes somos cegos, ou seja, somos aquelas pessoas que NÃO QUEREM VER… Em Torres Vedras ou em Tóquio, a merda é a mesma.

    Como diria von Trier, o Teatro deve contar às pessoas aquela história que as pessoas NÃO QUEREM OUVIR; deve ser uma pedra no sapato; só assim podemos ser afetados e convidados a refletir sobre a nossa Humanidade. O Teatro é, nos dias que correm, o instrumento político mais poderoso. E este espetáculo, independentemente das questões associadas ao gosto, quer ser um instrumento de revelação do estado de podridão e assustadora banalidade em que as sociedades atuais caíram/decaíram. Não apresentamos soluções (não somos sociólogos, nem antropólogos, nem urbanistas, nem cientistas políticos, nem gurus espirituais…); a ideia é justamente multiplicar os problemas.

    Quanto ao resto, tenho a minha consciência absolutamente tranquila. Fiz o espetáculo que sempre quis, com os atores mais extraordinários do Mundo, a quem devo um agradecimento impossível de descrever em palavras, e cumpri com todos os objetivos a que me propus: um espetáculo que apresenta (não representa) uma visão cansada e demissionária do Mundo, um cruzar de braços quando já mais nada há a fazer, o vazio, a ausência de sentido, o desmoronamento da História, o fim da Humanidade tal qual a conhecemos, a ineficácia e a precariedade associada à nossa vivência quotidiana. Afinal de contas, estamos em 2012. E o Teatro não pode ser, de todo, o lugar para nos esquecermos disso. A televisão e o cinema de Hollywood fazem esse trabalho muito melhor do que nós…

    (…)

    Termino com uma citação do espetáculo, traduzida de cor do Inglês:

    “O oposto da coragem não é a cobardia. O oposto da coragem é a CONFORMIDADE. Até um peixe morto consegue ir com a corrente…”

    Saudações,
    Rogério Nuno Costa

  12. Caro RNC,

    Você contradiz-se de sobremaneira. Diz que este espetáculo não pretendeu ser político para logo a seguir se colar à citação do Lars von Trier para quem o teatro é um intrumento político poderoso. Afirma que não faz juizos morais para posteriormente classificar de pornoráfico um comentário de alguém que não gostou do que viu em palco – que está, de resto, em conformidade com a sua intenção de abanar, chocar, mostar a podridão, etc. Não sei do que se quiexa, afinal.

    A questão da classificassão etária, ou melhor, da propositada ausência dela é a única sobre a qual importa falar. Não se trata aqui de evidênciar o quão os torreenses ou os japoneses têm uma mentalidade fechada. Tudo isso é acessório e fumo de cena. A verdadeira questão é a quem compete (e competia) num caso destes assumir a responsabilidade de informar as autoriades competentes relativamente à classificação etária do espetáculo.

    Segundo depreendo das suas palavras serão a Estufa e o Teatro-Cine os único responsáveis? Deram-lhe total liberdade para apresentar o que bem entendeu, mas existem leis e existe o bom-senso. É obrigação do criador (e co-criadores) informar que o espetáculo deve ter classificação etária. Ninguém o obriga a descrever o que lá se vai passar. Ao contrário da mensagem que agora pretende fazer passar não houve qualquer lápis azul, não se faça de vítima. De manipulações está o teatro cheio. E a vida REAL também.

    Felicidades

  13. 1. O espetáculo não pretendeu ser político, não foi essa a sua motivação. Mas qualquer espetáculo É político (e aqui não cabe só a arte, mas todos os seus sub-produtos). Não há contradição possível aqui. Há uma diferença (que não é só semântica) entre aquilo que eu digo ser e aquilo que eu sou independentemente do que digo ser.

    2. Não faço juízos morais em relação ao meu espetáculo enquanto obra artística. Como não faço em relação a nenhuma obra artística que se me apresente (sobretudo quando não gosto dela, situação que facilitaria, à partida, devaneios epidérmicos de cariz moralóide). Prefiro os juízos estéticos (que são sempre éticos, nunca morais). Não obstante, posso e devo ajuizar da maneira que me apetecer (porque tenho, como qualquer ser humano, uma “moral”) os comentários feitos à minha pessoa (não ao espetáculo) num contexto público (rede social). Trata-se de um insulto. E sobre isto pouco mais há a dizer.

    3. Não consigo perceber onde é que no meu discurso se lê que eu espero que as pessoas fiquem “chocadas” com o espetáculo e a ele reajam com comentários que expressem justamente esse choque, essa podridão e essa a-moralidade. Volto a frisar que um espetáculo é uma obra de ficção. Quando compramos o livro “O Que É A Filosofia?” (Deleuze/Guatari, citado atrás pelo Rui Matoso), não respondemos à pergunta; lemos o livro! Não, isto não é mais um joguinho semântico. Se reagíssemos literalmente às ideias veiculadas pelos espetáculos que vemos, estávamos todos mortos, ou então éramos anjos.

    3. Não me estou a queixar de nada. Estou a tentar criar um diálogo com as pessoas que se têm pronunciado sobre o espetáculo (umas gostaram, outras odiaram); só não respondo diretamente a insultos (como não o fiz com o espetador que me insultou no Facebook).

    4. Não, a ausência de classificação etária não é o único assunto sobre o qual interessa falar. Pode ser a única questão que lhe interessa a si, mas eu recuso-me a reduzir o meu espetáculo a um erro que, volto a repetir, não foi propositado. Se essa classificação me tivesse sido solicitada/imposta, tê-la-ia dado, ainda que para tal fosse preciso que as entidades competentes tivessem acesso aos conteúdos do espetáculo e sobre eles se pronunciassem. O meu “bom senso”, como já deve ter depreendido, não chega para afiançar se uma garrafa enfiada no cu pode ser vista por uma criança de 12, por um adolescente de 16 ou por um (jovem) adulto de 18. Escuso-me aos comentários sociológicos sobre a linguagem a que as crianças de hoje estão submetidas; não me compete fazer esse tipo de leituras, nem me interessam. Mas este tipo de avaliações levantam questões muito complexas e há pessoas que, munidas ou não de lápis-azul, estão preparadas profissionalmente para esse trabalho. A título de exemplo: fiz um espetáculo em 2007 com um texto teatral que continha linguagem bastante “gráfica” no que respeita a sexo, palavrões, insultos racistas, xenófobos e homofóbicos, nus integrais e outras aberrações performáticas; ora esse espetáculo foi classificado pelos senhores do IGAC com um M/12. Concluo que “bom senso” é a arma de arremesso fácil quando algo corre mal; ainda assim, fácil não é sinónimo de certo…

    5. O lápis-azul é evidentemente uma “imagem”, mas mais REAL do que imagina! A partir do momento que me perguntam se a cena da garrafa no cu se irá manter nas próximas apresentações ou se a mesma pode ser erradicada do espetáculo, e sabendo que essa decisão (entre outras) ditará se o espetáculo continua associado à entidade produtora ou não, isto na minha terra tem um nome: censura. Parcial (porque eu posso continuar a fazer o meu espetáculo quando e onde quiser), mas ainda assim censura.

    6. Não me estou a fazer de vítima. Estou só a fazer um esforço para clarificar uma situação. Lamento que não consiga ver isso nas minhas palavras.

  14. (Adenda ao ponto 5: sim, deram-me liberdade para fazer o espetáculo que quis, de outra forma não o teria feito; mas a “perseguição” moral de que eu e os atores temos sido alvo desde o dia 27 de Março a esta parte anula substancialmente essa liberdade inicial. Estão em jogo consequências graves que não vale a pena agora elencar. Recordo, e porque tudo isto me parece contaminado por um qualquer air du temps salazarento, a recente polémica em torno do trabalho dos artistas plásticos portugueses João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, que a Companhia de Seguros Tranquilidade censurou depois de ter “comissariado”. Ao que parece, era demasiado “paneleiro” para ser verdade…)

  15. Vejamos então…

    Quanto à ” classificação” não vale a pena trazer argumentos quanto à legalidade, nem é preciso ir por aí, bastava que alguém ligado às entidades produtoras (Estufa, Teatro-Cine) tivesse tido a perspicácia necessária para colocar uma folha na bilheteira com um aviso à possibilidade de haver cenas susceptíveis, p/ maiores 16)…

    E ao que sei e que foi também dito pelo RNC, os ensaios foram abertos, os técnicos do TC sabiam da cena da garrafa, eu próprio fiquei a saber antes do espectáculo começar…

    Portanto havia conhecimento prévio suficiente para se ter tomado alguma medida de modo a prevenir susceptibilidades e espíritos ofendidos. Por isso é que acho muito estranho um pai ter entrado com duas filhas, assim como quem vai ver mais um espectáculo “edificante” ao TCine ou vai ao jardim zoológico…enfim, as vezes no Zoo acontecem coisas estranhas 🙂

    De resto, e estou de acordo com o RNC, a reacção “epidérmica” deve-se essencialmente ao medo homofóbico, ao pânico do contágio social (catarse) que este tipo de espectáculo pode exercer na comunidade…

    O espectáculo anterior “Radical Wrong” (Wim Vandekeybus) foi tão ou mais provocador do que o “Residência Artística”, houve simulações de violação, raparigas a convidar espectadores, caralhadas, etc… alguém se queixou ? Não !!! O que por um lado indica que há públicos com interesse em estéticas politizadas/socializadas

    Porque surge então esta dualidade de reacções ? Porque no “Radical Wrong” eles eram estrangeiros/aliens, e no “Residência Artística” era feito com pessoas da terra ? Esse é o perigo, a presença “entre nós” de pessoas que procuram vias de trabalho artístico conflituantes … que pensam e agem para além do consensual, para além do bem-comportadinho-senão-és-castigado, e essencialmente apara além das identidades culturais petrificadas: machismo/homofobia, gosto médio de classe média branca, cultura e arte como distracção de fim-de-semana, etc…

    Isto mostra bem o provincianismo que existe ainda em 2012, se for um artista estrangeiro a masturbar-se em cena achamos que é altamente radical e “bué da louco”, se for um tuga já é “só para chocar” ou o “isso já foi feito”…

    Em suma: é óbvio, para quem estiver interessado na vitalidade cultural e artística de um cidade, só pode desejar que este “género” de espectáculos ou de outras formas artísticas contemporâneas similares e de qualidade aconteçam mais vezes e mais regularmente. E não vale a pena discutir aqui o que é a qualidade da cena artística contemporânea…quem está interessado sabe muito bem o que é a qualidade hoje na dança, na performance, no teatro, nas artes visuais, no cinema, etc…

    Portanto se tivéssemos de começar por discutir a programação das entidades públicas de cultura em TVedras (Galeria, Teatro), podíamos começar por fazer esta pergunta: porque não programam (regular e estruturalmente) mais artistas de qualidade e em simultâneo criam um programa de aprendizagem/debate em torno das estéticas, das obras e do pensamento dos jovens criadores portugueses ?…acho que isso sim seria um bom serviço público. Artistas e trabalhos bastante interessantes não faltam…

  16. Caros,

    Em primeiro lugar, agradeço a gentileza da tentativa de dialogar por parte do Rogério Nuno Costa. Tudo é política – foi precisamente isso que quis dizer no meu curto comentário. Estamos, portanto, de acordo nesse ponto.

    Não sei se aperceberam, mas abstive-me propositadamente de comentar o espetáculo em si, seja esteticamente ou seja em tecer qualquer juizo de valor. Sobre isso digo apenas que estou perfeitamente ciente que um espetáculo é ficção, não há necessidade de continuar a afirmar o óbvio a quem, curiosamente, até leu essa obra do Deleuze. Mas não tem de o ser, contudo.

    A cena da garrafa não é a única razão que leva à necessidade de existir uma classificação etária, ainda que esta fosse para maiores de 12 anos – tal como sucedeu no Radical Wrong. Se o espetáculo fosse classificado para maiores de 4 anos o problema não seria vosso. Mas assim, também é vosso! A questão da classificação etária é (devia ter sido) do interesse dos próprios criadores. Se o foi no caso do espetáculo apresentado em 2007 por RNC, não compreendo porque é que não se acautelou esse pequeno grande pormenor nesta situação. Dito de outro modo, se o “bom-senso” dos criadores e promotores funcionou no passado o que falhou agora? Houve pessoas que se aperceberam do conteúdo do espetáculo muito antes de este ter estreado – afirma Rui Matoso. Podemos concluir que esta lamentável situação se deveu a problemas de diálogo? Não deixa de ser irónico que alguém que trabalha há largos anos numa área que é, na sua essência, dialogante se tenha esquecido de repente de acautelar algo tão básico.

    Felicidades

  17. Lá está: não fui eu que tive que me acautelar em 2007. O espaço que acolheu (e co-produziu) o espetáculo tratou disso por mim. E a avaliação do mesmo (que ditou a classificação) foi feita por inspetores do IGAC, que assistiram a um ensaio. O meu bom-senso, ou falta dele, não entrou nesta equação.

    Devo também referir, porque me parece importante, que o senhor que saiu com os dois menores da “Residência (Artística)” (não tenho conhecimento de mais nenhuma situação semelhante), estava avisado por um dos elementos da Estufa, que nesse mesmo dia, ao assistir a parte do ensaio técnico geral, decidiu telefonar-lhe e aconselhá-lo a não levar os menores. Isto não menoriza a inexistência de um papel na porta com a classificação etária, mas é certo que se não tivessem entrado crianças na sala, não estaríamos a ter esta discussão. E elas entraram porque o pai quis.

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