Desejos & Reivindicações Culturais (2)

Continuação do post anterior

Fig. 2

Comentário: Este desejo parece remeter  para o identificado na Fig.1, é uma outra forma de fazer referência aos mesmos tópicos, ainda que não coincidente. A “agilidade em perceber onde estão as fortes dinâmicas culturais” reivindica a existência de uma atenção/observação/monitorização constante das “dinâmicas culturais”, o que requer uma estrutura (plataforma,observatório, consórcio,…) que permita cartografar essas mesmas dinâmicas e agir sobre elas em diversos eixos: oferta-procura, estudos de públicos, diagnósticos sócio-culturais, análise de oportunidades e ameaças, programação colectiva, etc…Em Portugal, à escala nacional, o Observatório das Actividades Culturais (http://www.oac.pt/) cumpre esse desígnio, através de publicação de estudos, por exemplo. No Brasil, a cidade de Porto Alegre desenvolveu também o seu observatório http://culturadesenvolvimentopoa.blogspot.com/ . Inúmeros exemplos não faltam! No entanto, algo do género “ Observatório das Dinâmicas Culturais” só tem pleno sentido se integrado numa estratégia mais abrangente de política cultural local, mas é por aí que as coisas falham, devido à sua inexistência.

A outra reivindicação “sem vassalagem!”, explicita um certo “mal estar na cultura” onde se denota que as práticas culturais existentes pressupõem um grau de “vassalagem”, ou seja, alguma (ou muita ?) adequação forçada ao sistema cultural oficial que define as regras e limites daquilo que pode ser a cultura e as práticas artísticas. Este é um sintoma clássico da relação entre Poder e Cultura, designadamente porque na sua vontade de dominação o poder pretende sempre legitimar a oferta cultural e domesticar o campo cultural através do uso do poder simbólico1. Existem várias formas de exercer essa legitimação cultural, como p. ex., através da autoridade, do carisma, da influência, da coerção, da retórica ou da representação. Este poder simbólico, ao contrário do poder físico (violência) tem um impacto bastante forte quando usado (explicita ou implicitamente), pois incide sobre as interacções sociais, ou seja, sobre as orientações de acção, atitudes, valores, maneiras de ser, enfim sobre o pensar e o agir.

Segundo o sociólogo Augusto Santos Silva a análise do poder cultural « mostra também como a forma mais intensa de poder é a hegemonia. Ela é o poder de definir os termos em que são pensadas ou sentidas as opções. É um poder de definição da estrutura, mais do que cada elemento de per si: definir a problematização ( ou a sua ausência), mais do que cada questão em concreto. Definir a agenda mais do que cada actividade, definir os termos em que são pensáveis as alternativas e não estas directamente, definir os quadros de pensamento mais do que pensamentos particulares. A hegemonia é este poder sobre os símbolos e as significações, sobre os modos e as orientações dos actores. Neste sentido, a hegemonia é um ponto de encontro entre a cultura, a ideologia e a política, o ponto em que, por via do poder simbólico, a relação assimétrica entre actores – isto é a relação política – se transmuta num encadeamento de escolhas de actores formados (e limitados) num sistema de alternativas, a partir de valores, finalidades e objectivos que eles assumem como seus – isto é, a partir da ideologia»2.

A “vassalagem” existirá de facto enquanto não se entender que o poder é também uma forma de relação, ou seja, para além de um poder concentrado nas mãos das instituições administrativas ( dominação/hegemonia/arbitrariedade/legitimação), todos os actores e agentes culturais detém o seu próprio poder enquanto capacidade transformadora, nomeadamente na transformação do status quo, e no combate à vontade de dominação através do empowerment de si e dos outros. Só a partir do momento em que existe consciência das forças e tensões hegemónicas existentes no campo cultural, é que se pode pretender ultrapassar a “vassalagem”, pois caso contrário, e como refere A. Santos Silva, são os próprios valores, finalidades e objectivos que os actores culturais assumem como seus, mas que na verdade já se encontram contaminados pela ideologia hegemónica, a qual por sua vez se configura como uma espécie de  água cultural do aquário em que vivemos enquanto seres socializados e culturais.

No quotidiano e na prática muito desse exercício de dominação do poder cultural hegemónico (ao nível local), exerce-se sob o manto da sedução retórica e do encantamento pelos discursos, da proximidade, provocando assim uma espécie de anestesia, de adesão voluntária imediata e natural, ou seja tornando-se algo de natural e naturalizado (como uma bênção divina), tornando-se um parente/amigo próximo dos actores e agentes culturais, muitas vezes num tom paternalista e carismático, procurando assim tornar-se incriticável. O carisma cultural incorpora-se normalmente na figura máxima da política local ( o presidente da câmara), representando-se assim aos olhos dos cidadãos como uma pessoa de bom gosto e dons especiais para o juízo estético. Nesta conjuntura reina um enorme, mas falso, consenso, gerado pela dominação hegemónica. E um poder é tanto mais forte quanto mais  consenso obtiver,  mais aceitação e reconhecimento…e menos forte será o poder daqueles que se prestam à “vassalagem”, entrando-se assim num eterno ciclo vicioso, cujo resultado prático para a cidade e para os cidadãos é o empobrecimento da esfera cultural e artística, resultante em decadência social e cultural.

Em suma, para quebrar o feitiço da “vassalagem” é necessário um processo auto-reflexivo que permita elucidar o funcionamento e a existência da hegemonia cultural, e este é essencialmente o papel que cabe aos agentes/actores que actuam no campo simbólico da cultura, das artes, do pensamento, da cidade, etc… Sem este processo de “desintoxicação” e “descolonização mental” (desterritorialização / reterritorialização) aquilo a que se pretenda chamar dinâmicas ou práticas culturais, não passam de reproduções da inércia social avessa à mudança ou de usos ornamentais da cultura, daí a necessidade de perceber onde estão as “ fortes dinâmicas culturais”, pois são essas que garantem a sustentabilidade, a qualidade, e a diversidade do ecossistema cultural.

P.S. – Sobre esta problemática haveria muito ainda a comentar…

Alguns textos complementares:

http://grupolusofona.academia.edu/ruimatoso/Papers/1156482/A_re_animacao_cultural_das_cidades_anestesiadas

http://www.oac.pt/pdfs/OBS_2_Pol%C3%ADticas%20Culturais_Conceitos%20e%20Perspectivas.pdf

http://grupolusofona.academia.edu/ruimatoso/Papers/1157760/Proposta_para_Programa_Eleitoral_-_Autarquicas_2009_Torres_Vedras_-_POLITICA_CULTURAL

http://www.culturaviva.com.pt/textos/nozes%20pires/Cultura%20e%20Poder%20Local_Nozes_Pires.pdf

http://grupolusofona.academia.edu/ruimatoso/Books/1156480/Cultura_e_Desenvolvimento_Humano_Sustentavel

1« poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou transformar a visão do mundo e deste modo a acção sobre o mundo, portanto o mundo» (Bourdieu, in O Poder Simbólico, pp 7-15, Difel)

2In Novos Trilhos Culturais – Práticas e Políticas, p. 283-284 (ICS, 2010)

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