Era uma vez um Museu Municipal

Artigo escrito por Pedro Fiéis (Historiador), acerca do Museu Municipal Leonel Trindade – Torres Vedras

Não sendo um especialista em museus, procuro tão-somente com este texto exercer uma cidadania ativa, algo que é um direito inerente a sociedades democráticas e mais do que isso um dever dos seus cidadãos.

Tal como escreveu Mário de Andrade, poeta, etnomusicólogo, etc. e um dos fundadores do modernismo brasileiro:

“Outra coisa que me parece de enorme e imediata necessidade é a organização de museus. Mas, pelo amor de Deus! Museus à moderna, museus vivos, que sejam um ensinamento ativo, que ponham realmente toda a população do Estado de sobreaviso contra o vandalismo e o extermínio.”

Mais há frente sugere ainda que nesses museus sejam apresentados materiais arqueológicos, folclóricos, artísticos, históricos, além de elementos de arquitetura regional, das atividades económicas e dos recursos naturais do município. Resumindo defende a valorização do existente, do mais singelo ao mais sofisticado, do popular ao erudito, da cópia ao original, do testemunho natural ao cultural, sem a preocupação de coleções fechadas. A narrativa museológica, nesse caso, surge do diálogo com a população interessada na constituição do museu.

Tudo isto para como expõe o Ministério da Cultura Brasileiro:

“O projeto de Mário de Andrade coloca-nos diante de alguns pontos que desafiam o fazer museológico contemporâneo e também inspira a criação de museus conectados com a vida social, comprometidos com a transformação da realidade e com o exercício do direito à memória e ao património como um direito de cidadania.

Esta referência é feita por colocar em evidência o fato de que a preocupação com os museus municipais tem história e que a construção de novos processos deve levar em conta as experiências e reflexões do passado.”

Quis começar com esta referência por entender que um Museu Municipal deve existir para 1) contar a história do lugar em que está inserido; 2) estudar os impactos da presença humana na transformação da região; 3) recolher memórias locais e 4) utilizando um chavão comum, num mundo global dar uma identidade regional aos seus habitantes.

E isso não está a ser feito atualmente no Museu Municipal Leonel Trindade. Concordo plenamente que o modelo anterior de exposição estava ultrapassado, mas a ideia de que um museu possuidor de um importante espólio arqueológico o tenha encaixotado, entristece-me e confunde-me, principalmente quando o site da Câmara Municipal o continua a evocar.

No fundo o que quero transmitir é que é possível, sem alterar o espaço e trabalhando com o espólio atual (e futuro), encontrar novas formas de o apresentar, tendo de um lado o que são as coleções permanentes e aí ter uma intervenção radical mas apenas ao nível da forma como se apresentam os objetos e de outro ter espaços para exposição temporárias, recordando este ou aquele episódio da longa vivência histórica desta hoje cidade.

Estes são espaços por excelência para experimentar novos conceitos que posteriormente até podem ser reaproveitados para os espaços permanentes.

Gostaria de referir aqui dois exemplos, começando pelo Museu de Liverpool, e faço-o sem querer comparar a dimensão das duas cidades, mas apenas para demonstrar como é possível manter exposições ditas “modernas” sem alterar de fundo o seu conteúdo, bastando para tal nomear uma das galerias – Detetives da História – cujo objetivo é dar a conhecer as descobertas arqueológicas e, tal com está no seu site, http://www.liverpoolmuseums.org.uk, responder a questões tão simples como: O que estava aqui? Como o sabemos? Como evoluiu a cidade?

Contudo tão ou mais importante do que as exposições permanentes, são os programas de parcerias com a comunidade que, em interação com a equipa do museu, pode apresentar novas visões para temáticas da história local1, ou seja, há efetivamente uma reciprocidade de opiniões e uma partilha de experiências, memórias e objetivos comuns.

A segunda referência vai para um dos candidatos a museu europeu de 2012 – Museu das Culturas do Mundo em Colónia, Alemanha, cujas novas instalações inauguraram igualmente uma nova forma de expor as coleções, abandonando um século de paradigmas que haviam norteado a instituição até aí. Tal como é descrito pelo júri do prémio:

“Ao rejeitar a tradicional divisão geográfica e optar por temáticas, abriu-se portas para novos conteúdos, novas interpretações e soluções inovadoras de exposição, estabelecendo um novo paradigma para outros museus. O museu demonstra o seu empenho em servir todos os seus públicos (…). Todos os visitantes encontrarão algo para admirarem e refletirem (…).

Em jeito de conclusão reafirmo a minha convicção de que um Museu Municipal não subsiste de exposições temporárias, deve isso sim utilizar o que é o seu espólio para encontrar o seu potencial máximo em termos culturais, educacionais, de inclusão social e porque não de revitalização urbana, por forma a instilar um sentimento de pertença a uma região e inseri-la no contexto europeu e deve igualmente abrir as suas portas à comunidade associativa em geral, dialogar de forma sincera e requerer mesmo a sua colaboração para se transformar no grande repositório das memórias coletivas do concelho.

1 À data em que escrevo este texto a exposição temporária fora montada com a ajuda de residentes de uma área de Liverpool, que selecionaram objetos das coleções do museu para através dos mesmos contarem memórias e vivências durante a 2ª Guerra Mundial.
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2 thoughts on “Era uma vez um Museu Municipal

  1. interessante reflexão sobre o museu municipal de torres vedras e sobre os caminhos que se podem traçar com o seu espólio. gostei de ler, obrigada pela partilha.

    ps- fico feliz por ver que ainda há quem pense e não tenha medo de expôr as suas reflexões, as suas criticas e ideias. o que me parece tão básico como a condição de existir, mas não o é.

  2. Também considero uma reflexão importante! Afinal um Museu Municipal é a casa da memória de uma comunidade. E, a memória de Leonel Trindade merecia muito mais respeito do que aquela que (não) tem tido.

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