programação cultural irreverente, ou como quebrar o feitiço ? (1)

Porque é que não existe  programação cultural  irreverente ? (em cidades médias)

Porque é que na maioria dos casos – reconheço que a generalização pode eventualmente ser injusta – a vida cultural das cidades médias é composta , salvo honrosas excepções,  por programas culturais que suscitam quase exclusivamente um sentido de reverência ? Gerando assim uma lógica de  fruição ancorada na adequação ao status quo, o qual, por sua vez, é fruto de  mecanismos miméticos de auto-limitação / auto-censura e da reprodução social.

(Barbara Kruger)

Na maioria das vezes, os programadores/mediadores/dinamizadores… escolhem e juntam umas coisas do catálogo da cultura objectivada, ou seja, dos produtos e serviços culturais existentes, e apresentam-os a essa imensa maioria para quem a reverência ao “estado das coisas” (seja ele qual for) , e à sua eterna manutenção, é um gesto automático e entranhado, resultado da inércia social e cultural.

Estas “programações generalistas” pecam de facto pela sua arbitrariedade, pela leviandade com que são (não) pensadas, e por isso servem apenas para agradar a gregos e a troianos, isto é, para não agradar a ninguém em especial ou para alimentar as formas de representação da cultura oficial (guardiãs do consenso pré-democrático / status quo).

O problema coloca-se quando se pretende que o lugar da cultura (das práticas artísticas, do conhecimento, do pensamento,…) na cidade seja exactamente o oposto, o de transformar valores, referentes e hábitos culturais “monoteistas”, o de fornecer capacidades críticas e de intervenção na vida pública, o de permitir que floresçam imaginários alternativos, etc, etc…

Outro dos problemas  estruturais da programação reverente, é não ter em atenção a diversidade sociocultural da cidade, o potencial das misturas, das minorias, dos estranhos, dos imigrantes, das minorias…mantendo assim uma visão substancialista da identidade cultural homogénea e cristalizada.

Contudo, não pretendo com isto afirmar que essas programações light sejam deliberadamente maléficas, e que os seus autores pretendam injectar estados mentais  passivos ou socialmente adormecidos….

Como disse João Fernandes (Director do Museu de Serralves) numa entrevista ao Público: « A arte deve propor a polémica e não o consenso.»

Mas então, como quebrar o feitiço ?

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3 thoughts on “programação cultural irreverente, ou como quebrar o feitiço ? (1)

  1. Não vamos mais longe e nem se trata de programação cultural mas de artesanato. Vejamos, a semana passada uma loja em Torres Vedras foi criticada publicamente (comentários via Facebook, etc) porque haviam colocado na montra um conjunto de artigos com desenhos/tecidos de galinhas e ovos da Páscoa. Ora, na Páscoa querem-se coelhinhos e não galinhas e tal acto não é ultrajante.
    Isto não vos diz tudo? A mim, diz.

  2. Só agora li isto. Mais um texto “nostradâmico”, que ajuda bastante bem a perceber porque razão a “polémica anti-consensual” de “Residência (Artística)” deu a bronca que deu. Ao que parece (e vim a saber), se fosse do conhecimento das entidades competentes (várias) o conteúdo do mesmo, jamais teria sido “programado” no Teatro-Cine de Torres Vedras. Eu cá acho que toda a gente tem direito a ler (e a compreender) Dostoievski; mas pelos vistos há quem ache que Torres Vedras não merece mais que Margarida Rebelo Pinto.

  3. Acho que seria importante isolar a raiz principal da polémica com a “Residência (Artística)” e perceber a sua razão de ser. Ainda não é claro (para mim) se foi apenas o lapso com a presença de crianças no público, ou se há algum outra causa transcendental…

    Por outro lado, é preciso alguma lucidez para não misturar tudo, ou seja, ver p.ex. que o Teatro-Cine ( e o seu responsável) têm possibilitado a apresentação de espectáculos e projectos artísticos fortes, o caso do “Radical Wrong”/Wim Vandekeybus (http://ipsilon.publico.pt/teatro/texto.aspx?id=302034) é exemplo disso. Mas claro que é possível ter uma maior presença de obras, autores e companhias contemporâneas, e projectos mais extensos !!!

    Só digo isto, porque se queremos (nós, pessoas revoltadas contra a situação política, social, cultural e económica, mas motivadas pelo devir e por novas formas de existência social mais plenas e vibrantes) contribuir para alterar o “status quo” vigente, temos de identificar e analisar o problema…para depois quebrar-lhe o feitiço.

    Viram o “Senhor dos Anéis”, certo ?

    So, whats the problem ?

    😉 🙂 😉

    Nostradamix dix it

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